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terça-feira, outubro 19, 2010

Segunda-feira

Acordei com um gosto estranho na boca. Abri os meus olhos e não vi muita coisa, eu estava tonto. Uma música persistente tocava ao lado de meu ouvido direito, e isso me deixava aturdido. Tentei me mexer, mas meu corpo não colaborava, o que me fez ficar deitado ali por mais alguns minutos. A música parou; no entanto, o gosto estranho permanecia ali na boca. Após uma drástica análise da noite passada, lembrei-me dos quatro copos de café até a boca, um café forte que só eu sabia fazer — mas aprendera com minha mãe. Olhei ao redor, mas minha cabeça doía e pesava, com algum esforço consegui me sentar na cama. Na minha escrivaninha havia lotes e mais lotes de papéis, todos escritos ou desenhados. Também havia várias canecas, todas escritas “Cooffe” ou “I love cooffe”. Vi um casaco pendurado na cadeira de rodinhas, estava quase caindo no chão. O ventilador estava ligado, alguns raios de sol entravam fracamente pela persiana. A música de antes voltou, só que parecia ainda mais alta pelo fato de eu estar consciente dela ali. Era um rock antigo que eu adorava, de uma banda antiga que eu também adorava. Aquela música me lembrou de um show da banda, alguns anos antes, que eu sonhara em ter ido, mas infelizmente, não pude.
Só então me dei conta de que estavam me ligando. Revirei os olhos, mas me arrependi: causou uma estranha sensação na testa. Eu odiava quando me ligavam, eu odiava conversar... eu odiava tudo. Mas, no mesmo instante, imaginei que pudesse ser meu pai dizendo para que eu fosse buscar meu irmão mais novo no colégio. “Merda, por que não ligam para o Prince?”, pensei, furioso. Pensei também que poderia ser uma outra pessoa especial; uma mulher, melhor dizendo, que há alguns anos era apenas uma menina que eu era apaixonado. “Ou talvez seja alguém me ligando para me falar que os zumbis resolveram aparecer hoje”, lamentei mentalmente por este último ter sido o único pensamento que me animou a atender o maldito do celular.
Afinal, era apenas um amigo chamando para ir a um baile. “Baile, ora, baile!”, eu respondi, “Sabe que odeio bailes, sabe que odeio lugares cheios e música alta”, meu amigo do outro lado apenas suspirou e riu em seguida. Nos despedimos. Joguei o celular entre o cobertor e me levantei cambaleante. Fui até o frigobar e peguei água. Fui até a janela, afastei a persiana e fiquei recostado no parapeito, observando a cidade. Aquela era apenas mais uma segunda-feira.

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