O despertador do celular tocou apenas uma vez. Foi o suficiente para me fazer acordar. Como sempre, abri os olhos antes mesmo de minha consciência “acordar”. Olhei ao redor, vi meu quarto. Espreguicei-me, continuei ali mais uns minutos, sentei-me na cama. Afastei logo o cobertor, eu estava com calor, embora o ventilador estivesse ligado. Pus os pés no chão frio, lembrei-me de minha mãe e meu pai que sempre reclamavam por eu andar descalço, tateei o chão com os pés, mas não encontrei os chinelos, então me levantei assim mesmo. Abri a porta do quarto, passei vagarosamente pelo corredor, entrei no banheiro e me olhei no espelho. Um cara jovem, com os cabelos comumente bagunçados, os olhos inchados (eu acabara de acordar, ora essa!), e uma expressão de ressaca. Senti como se estivesse esquecendo de alguma coisa, como se faltasse algo, mas ignorei. Lavei meus olhos com água, peguei a toalha e me sequei; já seco, lavei o rosto com o sabonete, enxagüei, peguei a toalha e sequei; mais uma vez livre de toda a água, comecei a escovar os dentes. Para qualquer um que não me conheça, essa minha mania pode parecer completamente bizarra, mas é assim que eu sou. Faço praticamente a mesma coisa no banho: passo o xampu no cabelo, faço a espuma, em seguida enxáguo as mãos, então começo a tirar. O mesmo ocorre com o creme (creme, condicionador, o que seja).
Em seguida eu fui ao quarto e troquei de roupa, embora tivesse quase certeza de que passaria o dia todo em casa sem fazer nada. Escolhi uma blusa azul bem simples, uma calça jeans velha. Conferi todas as janelas do apartamento, a porta, e então liguei o ar-condicionado central. Sim, eu tinha um. Fui à cozinha e abri a geladeira: não havia muita coisa. Havia suco, havia água, havia gelatina; havia também algumas frutas, iogurte, manteiga, requeijão, presunto e um saco de biscoito. Fiquei parado um tempo encarando o saco de biscoito e me perguntei por que eu o colocaria dentro da geladeira. Tirei-o de lá e o joguei na pia. Peguei a manteiga e o presunto e pus na mesa, fui até o armário de madeira e peguei o pão de forma. Poucos minutos depois e eu estava comendo um saboroso misto-quente, acompanhado de uma bela xícara de um café bem forte. Pensei em quando sairia daquele apartamento e iria para uma casa de verdade. Pus a mão na boca e bocejei (modéstia à parte, mesmo sozinho eu tenho educação). Pensei também se algum dia me casaria, se algum dia teria filhos. Não era o meu feitio: não mesmo! Mas imaginei que uma hora eu me cansaria de tudo, arranjaria uma esposa perfeita para mim, teria filhos e então curtiria o resto da vida escrevendo pequenos contos para eles e publicando-os nas editoras. Minha esposa deveria ter um emprego estável, mas um que ela gostasse e se sentisse bem nele. Formaríamos uma banda de família, onde eu com certeza tocaria um piano. Minha esposa talvez pudesse tocar violino, ou talvez violão, ou quem sabe bateria até. Um de nossos filhos (caso tenhamos mais de um) teria de fazer o vocal. Ri bobamente ao me pegar pensando naquelas coisas. Queimei o céu da boca com o misto-quente ainda quente e tomei depressa o café para ver se passava a dor, mas só piorou. Café quente, não é mesmo...?
Acabei por ser obrigado a me levantar e pegar um copo de água gelada. Olhei para um papelzinho preso na geladeira, estava escrito em uma letra bonita, caprichada: Tive de sair cedo, beijos. Eu conhecia aquela letra, era dela. Ah, então era isso que estava faltando: a sua companhia.
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