O carro andava muito depressa. No banco de trás, os dois irmãos estavam bem quietos, cada um com seus fones de ouvido, escutando suas músicas. O vento entrava veloz pelas janelas abertas, jogavam os cabelos dos dois para trás, o que fazia o cabelo do irmão mais novo, o de óculos, ficar ainda mais bagunçado do que o normal. A família agora passava por uma estrada com pouquíssimos carros: talvez isso estivesse ocorrendo por ser cinco e meia de um sábado. O irmão mais novo, então, olhou para o céu que ia clareando. Lá ele via o sol saindo de trás das nuvens muito alvas, era uma bela cena. Olhou então para as árvores que iam sendo deixadas para trás conforme o carro ia andando depressa, eram árvores muito grandes, com as folhagens muito verdes, era tudo muito belo; estavam começando a se aproximar do interior, a se aproximar dos morros, das montanhas. Os postes já estavam ficando escassos, já iam sendo bastante grandes os espaços entre um e outro. Mas então, pouco antes de subirem a serra, o garoto olhou para o último poste que veria (pelo menos por alguns dias). E então, mais uma vez, algo nos fios lhe chamou atenção: uma bola laranja. Era uma bola grande, gorda, laranja, que lembrava muito uma bola de basquete. Ficou assustado, imaginando como teriam posto uma bola de basquete atravessada no fio elétrico. Tem de ser muito bom mesmo, pensou ele. Decidiu perguntar ao irmão se vira a bola, e o mesmo concordou, ficaram por alguns minutos debatendo o caso. Prince sugeriu que jogadores de basquete tivessem errado a mira e as prendido ali sem querer, mas Pontas simplesmente mantinha-se sem opinião a respeito daquilo, apenas imaginando que tipo de pessoa poria bolas de basquete em fiação elétrica.
Prince revirou-se no banco e olhou para trás, para dar uma última olhada na bola laranja, Pontas fez o mesmo. Nunca haviam visto nada igual. Mas então eles logo foram distraídos pelo cenário que mudara: as árvores, o mato, a estrada iluminada apenas pelo sol que agora abandonava as nuvens e ia colocar-se em seu lugar de sempre no céu. Existiam muitas coisas das quais os garotos não compreendiam, ainda eram pequenos, ainda tinham muito que viver. Muitas dessas coisas que não entendiam nunca viriam a ser explicadas, outras demorariam a ganhar significado na mente de Pontas, mas sua cabeça, seu cérebro, eles nunca descansariam, e estariam sempre dispostos a pensar nas hipóteses mais improváveis sobre tudo, como pensara uma vez que talvez jogadores de basquete tivessem colocado aquelas bolas laranjas lá para se guiarem até uma quadra.
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