teste selecione o texto Pontas' Stupid Life: Green Day
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quinta-feira, outubro 28, 2010

Esquecimento

O despertador do celular tocou apenas uma vez. Foi o suficiente para me fazer acordar. Como sempre, abri os olhos antes mesmo de minha consciência “acordar”. Olhei ao redor, vi meu quarto. Espreguicei-me, continuei ali mais uns minutos, sentei-me na cama. Afastei logo o cobertor, eu estava com calor, embora o ventilador estivesse ligado. Pus os pés no chão frio, lembrei-me de minha mãe e meu pai que sempre reclamavam por eu andar descalço, tateei o chão com os pés, mas não encontrei os chinelos, então me levantei assim mesmo. Abri a porta do quarto, passei vagarosamente pelo corredor, entrei no banheiro e me olhei no espelho. Um cara jovem, com os cabelos comumente bagunçados, os olhos inchados (eu acabara de acordar, ora essa!), e uma expressão de ressaca. Senti como se estivesse esquecendo de alguma coisa, como se faltasse algo, mas ignorei. Lavei meus olhos com água, peguei a toalha e me sequei; já seco, lavei o rosto com o sabonete, enxagüei, peguei a toalha e sequei; mais uma vez livre de toda a água, comecei a escovar os dentes. Para qualquer um que não me conheça, essa minha mania pode parecer completamente bizarra, mas é assim que eu sou. Faço praticamente a mesma coisa no banho: passo o xampu no cabelo, faço a espuma, em seguida enxáguo as mãos, então começo a tirar. O mesmo ocorre com o creme (creme, condicionador, o que seja).

Em seguida eu fui ao quarto e troquei de roupa, embora tivesse quase certeza de que passaria o dia todo em casa sem fazer nada. Escolhi uma blusa azul bem simples, uma calça jeans velha. Conferi todas as janelas do apartamento, a porta, e então liguei o ar-condicionado central. Sim, eu tinha um. Fui à cozinha e abri a geladeira: não havia muita coisa. Havia suco, havia água, havia gelatina; havia também algumas frutas, iogurte, manteiga, requeijão, presunto e um saco de biscoito. Fiquei parado um tempo encarando o saco de biscoito e me perguntei por que eu o colocaria dentro da geladeira. Tirei-o de lá e o joguei na pia. Peguei a manteiga e o presunto e pus na mesa, fui até o armário de madeira e peguei o pão de forma. Poucos minutos depois e eu estava comendo um saboroso misto-quente, acompanhado de uma bela xícara de um café bem forte. Pensei em quando sairia daquele apartamento e iria para uma casa de verdade. Pus a mão na boca e bocejei (modéstia à parte, mesmo sozinho eu tenho educação). Pensei também se algum dia me casaria, se algum dia teria filhos. Não era o meu feitio: não mesmo! Mas imaginei que uma hora eu me cansaria de tudo, arranjaria uma esposa perfeita para mim, teria filhos e então curtiria o resto da vida escrevendo pequenos contos para eles e publicando-os nas editoras. Minha esposa deveria ter um emprego estável, mas um que ela gostasse e se sentisse bem nele. Formaríamos uma banda de família, onde eu com certeza tocaria um piano. Minha esposa talvez pudesse tocar violino, ou talvez violão, ou quem sabe bateria até. Um de nossos filhos (caso tenhamos mais de um) teria de fazer o vocal. Ri bobamente ao me pegar pensando naquelas coisas. Queimei o céu da boca com o misto-quente ainda quente e tomei depressa o café para ver se passava a dor, mas só piorou. Café quente, não é mesmo...?

Acabei por ser obrigado a me levantar e pegar um copo de água gelada. Olhei para um papelzinho preso na geladeira, estava escrito em uma letra bonita, caprichada: Tive de sair cedo, beijos. Eu conhecia aquela letra, era dela. Ah, então era isso que estava faltando: a sua companhia.

terça-feira, outubro 19, 2010

Segunda-feira

Acordei com um gosto estranho na boca. Abri os meus olhos e não vi muita coisa, eu estava tonto. Uma música persistente tocava ao lado de meu ouvido direito, e isso me deixava aturdido. Tentei me mexer, mas meu corpo não colaborava, o que me fez ficar deitado ali por mais alguns minutos. A música parou; no entanto, o gosto estranho permanecia ali na boca. Após uma drástica análise da noite passada, lembrei-me dos quatro copos de café até a boca, um café forte que só eu sabia fazer — mas aprendera com minha mãe. Olhei ao redor, mas minha cabeça doía e pesava, com algum esforço consegui me sentar na cama. Na minha escrivaninha havia lotes e mais lotes de papéis, todos escritos ou desenhados. Também havia várias canecas, todas escritas “Cooffe” ou “I love cooffe”. Vi um casaco pendurado na cadeira de rodinhas, estava quase caindo no chão. O ventilador estava ligado, alguns raios de sol entravam fracamente pela persiana. A música de antes voltou, só que parecia ainda mais alta pelo fato de eu estar consciente dela ali. Era um rock antigo que eu adorava, de uma banda antiga que eu também adorava. Aquela música me lembrou de um show da banda, alguns anos antes, que eu sonhara em ter ido, mas infelizmente, não pude.
Só então me dei conta de que estavam me ligando. Revirei os olhos, mas me arrependi: causou uma estranha sensação na testa. Eu odiava quando me ligavam, eu odiava conversar... eu odiava tudo. Mas, no mesmo instante, imaginei que pudesse ser meu pai dizendo para que eu fosse buscar meu irmão mais novo no colégio. “Merda, por que não ligam para o Prince?”, pensei, furioso. Pensei também que poderia ser uma outra pessoa especial; uma mulher, melhor dizendo, que há alguns anos era apenas uma menina que eu era apaixonado. “Ou talvez seja alguém me ligando para me falar que os zumbis resolveram aparecer hoje”, lamentei mentalmente por este último ter sido o único pensamento que me animou a atender o maldito do celular.
Afinal, era apenas um amigo chamando para ir a um baile. “Baile, ora, baile!”, eu respondi, “Sabe que odeio bailes, sabe que odeio lugares cheios e música alta”, meu amigo do outro lado apenas suspirou e riu em seguida. Nos despedimos. Joguei o celular entre o cobertor e me levantei cambaleante. Fui até o frigobar e peguei água. Fui até a janela, afastei a persiana e fiquei recostado no parapeito, observando a cidade. Aquela era apenas mais uma segunda-feira.