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sexta-feira, dezembro 10, 2010

Fragmentos de vida #2

“- 17 de Junho de 2010 – 08:42 P.M.
Faz pouquíssimo tempo que as aulas começaram. Ainda é junho. Na verdade, o tempo está passando rápida ou lentamente? Eu juro que não faço idéia. Só sei que no fim do ano eu direi ‘Nossa, vejam, já estamos em dezembro, como o ano passou rápido’. Eu sempre digo isso, todos sempre dizem também (não exatamente com as mesmas palavras, é claro). Acontece que eu já fiz amizades. Não, eu não fiz amizades, não são meus amigos. Colegas, eu os chamaria; colegas...

Logo no primeiro dia de aula eu fiz duas amizades. Amizade não, droga! É a falta de uma outra palavra que me faz escrever ‘amizade’ toda hora. Bom, eu só sei que daqui há alguns meses — quem sabe semanas? — eu, provavelmente, muito provavelmente, já não estarei falando com nenhum desses meus novos colegas. Bom, na verdade, só fiz duas colegas. Sim, duas. Garotas, sabe? Um amigo meu (amigo mesmo) está na mesma sala que eu; isso é bom, eu acho. Acho que eu já mencionei essas garotas antes, e esse meu amigo. Sei lá, sabe que nunca fui bom em me lembrar das coisas, e não estou mesmo com disposição para ler as outras escrituras minhas, as anteriores.

É engraçado isso: tem pessoas com quem realmente nos damos bem, nos identificamos, e outras com quem nos irritamos logo de cara. É coisa do cérebro, isso? Quero dizer, como é possível julgarmos alguém assim? Só de olharmos, só de ouvirmos falar uma coisa, ou de fazer alguma coisa. Sei lá, tem impressões, na verdade, que realmente nunca mudam. Dizem que é a primeira impressão que fica, mas não concordo muito com isso. Juro para você que tinha meninas, no primeiro dia de aula, por quem senti uma forte atração, mas que hoje, no meio de junho, já tendo passado um bom tempo na mesma sala que elas, eu já nem vejo mais tanta beleza e simpatia. Aposto que isso acontece com os outros também; ou será que não? Bom, nos primeiros dia de aula, juro que uma das garotas com quem fiz colegagem (sim, eu acabei de inventar este termo) achava meu amigo de outro colégio um cara legal e bonito, mas hoje simplesmente já não sente vontade nem de se aproximar dele para conversar.

Não pretendo ficar aqui muito mais tempo, só queria escrever esses pensamentos que acabaram ficando presos na minha cabeça ao decorrer do dia de hoje, após presenciar certas cenas e ouvir certas coisas. Mas para resumir meu dia em uma só palavra, acho que eu escolheria a palavra ‘divertido’. Hoje foi quinta-feira, tivemos aula de História Geral, o professor é extremamente engraçado e gente boa; tivemos aula de Língua Portuguesa também, professora igualmente engraçada, muito gente boa, divertidíssima. Tivemos Redação, a professora tem um tipo de humor bastante diferente, mas que eu apreciei deveras. Ela vive nos contando os apertos pelos quais ela passa, as situações mais terríveis e improváveis (tudo culpa do azar, realmente), mas que para nós, meros alunos, é extremamente engraçado; me identifiquei com ela por isso: ambos somos azarados.”


O meu quarto é como uma cidade antiga em ruínas. Quanto mais eu mexo nele, mais coisas interessantes eu acho. Talvez esse texto não seja realmente interessante, acho que não é. Mas é como se eu visse uma outra pessoa, um outro eu, de muito tempo atrás; são lembranças de como eu era. Sim, de como eu era, pois eu, você, todos, mudamos a todo instante que passa. De qualquer maneira, acho melhor eu voltar com os contos, e acho melhor eu me servir logo de café e biscoito antes que meu estômago berre de tanta fome.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

Fragmentos de vida #1

“- 15de Março de 2010 – 09:32 PM

Eu tinha acabado de chegar a minha casa. Não havia muito que fazer, meus pais estavam fora, meu irmão mais velho chegaria logo da escola, o mais novinho estava no colégio. Eu fui até meu quarto e joguei a mochila em cima da cama. Tirei o uniforme, tomei banho, pus uma roupa folgada, aquelas de ficar em casa. Saí para o corredor. Lá estava meu irmão, com ar de cansado, indo para seu quarto. Cumprimentamos-nos rapidamente, ele entrou, eu fui para a sala. Esperaria por ele para almoçarmos juntos, embora eu já estivesse com fome. Sentei-me no sofá da sala de estar, e, então, eu vi o armário de vinhos do meu pai. Era um armário grande, no alto, na parede esquerda da sala, logo ao lado da parede onde ficava a televisão. Reparei que havia quase vinte garrafas de vinho lá. Por que meus pais nunca bebiam tudo aquilo? Ele vivia ganhando todo ano, perto do Natal, uma garrafa daquelas. Levantei-me e fui até lá. Analisei algumas, tomando o maior cuidado do mundo, e percebi que um dos vinhos era italiano; outro era da Argentina. Havia ainda um de Portugal. Todos eles tinham escrito “Vinho fino” na pequena embalagem que os cercava. Eu nunca bebera vinho na vida, e nunca bebi até hoje, acho. Ah, não, minto. Bebi na festa de Réveillon do ano passado, mas era um vinho que mais se parecia com soda, agora não me recordo o nome. Talvez algum dia eu venha a beber um vinho tinto, acho que esse é o nome para aqueles vinhos vermelhos, ou escuros, como preferir, que minha avó por parte de mãe tanto gosta. É, talvez eu devesse visitá-la alguns dias com todas aquelas garrafas e lhe presenteasse; ela ficaria bastante contente, e teríamos menos coisas inúteis na casa. Mas acho que isso não seria tão legal, afinal, se nós temos um Armário para Vinhos (não é uma adega, mas mesmo um armário para se guardar vinhos), acho melhor termos vinho para guardar nele. Acho que essa foi mesmo o melhor pensamento que tive no dia de hoje, não quero escrever mais nada aqui. Ocuparia muitas linhas com coisas inúteis que vivencio.”


Achei esse fragmento de vida enquanto revirava todos os montes de papéis no meu quarto hoje. Data lá pro início do ano, nem lembrava mais, mas acho que até julho eu vivia escrevendo esse tipo de coisa. Decidi postar aqui, achei legal. Espero que goste, leitor, espero que ria, sei lá, qualquer coisa que o entretenha.

sábado, novembro 27, 2010

Supertramp - The logical song (texto)

Quando eu era jovem, parecia que a vida era tão maravilhosa, um milagre, é, ela era tão bonita, mágica. E todos os pássaros nas árvores cantavam felizes, alegres, brincalhões, me observando. Mas então eles me mandaram embora para me ensinar a ser sensato, para me ensinar a ser lógico, responsável, prático. Mostraram-me um mundo onde eu poderia ser muito dependente, doentio, cínico. Todavia, tem vezes que, quando todo o mundo dorme, as questões seguem profundas demais. Alguém aí me diga o que aprendemos, por favor. Eu sei que soa um absurdo, mas alguém, por favor, faria a gentileza de dizer quem eu sou?

Mas devemos ter cuidado com o que dizemos, ou então eles nos chamam de radicais, de liberais, até criminosos. E você, vai assinar seu nome? Eles gostariam de sentir que você é aceitável, respeitável, e com certeza apresentável. Um verdadeiro vegetal!

E à noite, quando todo o mundo dorme, as questões ficam ainda mais profundas para um homem simples como eu. Você me dirá o que aprendemos com tudo isso? Quero dizer, isso realmente soa absurdo. Transformar-se em algo apresentável, em algo aceitável por todos, tornar-se dependente cada vez mais de um mundo que só afunda e afunda. Qual a verdadeira graça em seguir as regras e prender-se a um mundo como o de hoje? Por que a vida não pode ser sempre (ou ao menos parecer sempre) uma maravilha, um milagre, uma beleza? Onde está toda a magia? Onde se encontram agora os pássaros que cantam nas árvores?

Pergunto novamente: e você aí, irá assinar seu nome nessa lista de apresentáveis, perfeitos e... vegetais?


Supertramp - The logical song

segunda-feira, novembro 22, 2010

I am back

Sentei-me à cadeira do computador e suspirei. Alguns minutos após o uso da máquina, descobri pelo manuseio que o mouse se encontra em péssimo estado: trava a todo momento. Assim que acessei meu Messenger, algumas janelas chamaram. A algumas eu não dei tanta atenção, a outras eu dei tanta atenção quanto um mendigo daria a um saco com barras de ouro. Em seguida eu cliquei no navegador, a página inicial de sempre abriu. De sempre... É, de sempre, mas fazia algum tempo que eu não a via realmente.
Pensei no que eu procuraria. Ah, ora, eu estava livre para pesquisar qualquer coisa que eu quisesse, por mais boba que fosse. Lá na barra de endereços, eu digitei o primeiro site que me veio a mente. Assim que a página abriu, a música começou. Música clássica. Tanto tempo que eu não a escutava. Em seguida li o título "Doçaria do Manoel". Senti-me em casa. Por algum motivo, criei um certo laço emocional com esse blog; talvez seja pelo fato de eu postar meus pensamentos, meus contos, minhas ideias, e tudo isso através do que mais gosto: textos. Algumas vezes até imagens. Percebi que eu não escrevi algo fazia bastante tempo, mas eu não estava realmente com ideias, então decidi por escrever qualquer coisa. Qualquer coisa que viesse à cabeça. Dei pausa na música clássica e decidi escutar um rock. Olhei que me chamavam no Messenger, era ela. Ela que também havia acabado de "voltar"; voltar de tanto tempo que estivera "fora". Pelo menos fora de minha vida...
Eu gostaria de deixar uma mensagem bonita ao fim dessa postagem, mas a única coisa que posso dizer (e não é nada bonita ou comovente) é "I am back".

quinta-feira, novembro 04, 2010

Doçaria do Manoel

Já era tarde da noite quando ele atravessou a rua de sua casa. Não havia muitos carros na rua, nem muitas pessoas, apenas alguns mendigos; e também uns bêbados que voltavam cambaleantes para suas casas. Olhou o relógio e viu sob a luz do poste que era uma e trinta e três da matina, e lá estava ele atravessando a rua de sua casa, com um destino certo.

Não sabia se valia tanto a pena assim ter se arrumado, saído no frio da noite, encontrado pessoas estranhas, e ter corrido o risco de ser assaltado ou morto por uma coisa boba como aquela que ele queria. Mas não conseguia dormir sem essa coisa, não conseguia de jeito nenhum! Sabia que era psicológico, mas o que fazer em relação àquilo?

Continuou seu caminho sem nenhuma interrupção, chegou ao destino. Entrou na loja vazia e agradeceu a Deus por ela ficar aberta vinte e quatro horas. Pensou nos empregados que trabalhavam ali, com certeza havia alguém (aquele cara ali atrás do balcão) que trocava de turno com outra pessoa. Não era humanamente possível alguém ficar acordado noites à fio durante quase uma semana... Bom, ele quase conseguia essa proeza de vez em quando.

Olhou pelas prateleiras, temeu não conseguir achar o que procurava, mas então seus olhos fitaram o objeto. Era uma barra de chocolate (eu não faço idéia se uma barra de chocolate é um objeto, acredito que seja, mas foi a palavra que encontrei ali na hora). Sorriu e a pegou. Foi até o caixa e deu um boa-noite animado, que o homem respondeu monotonamente, mas ele não se importou. Pagou e desembrulhou o chocolate, mordendo-o antes mesmo de sair da loja. Sentiu um alívio tremendo... Estava tentando há algumas semanas parar com a maluquice de ter de comer chocolate antes de ir se deitar para dormir, mas era impossível. Voltou para casa tranquilamente, tudo lhe parecera mais bonito. Abriu a porta de sua residência, entrou, trancou. Subiu até seu quarto, terminou de comer, jogou a embalagem na cabeceira da cama e escovou os dentes. Foi para a cama e deitou. Acordou algumas horas depois, sentindo um enjôo terrível, foi ao banheiro e vomitou. Assustado, pegou a embalagem do chocolate e foi ler a validade: 04/11/2007. Tinha duas opções: parar de vez com toda aquela maluquice de chocolate, ou processar a Doçaria do Manoel.