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terça-feira, janeiro 11, 2011

A carta

Surrey, 03 de Julho de 1968.

A passagem era muito estreita e secreta, eu quase não a tinha visto por ali, um beco escuro muito apertado. O beco situava-se entre duas moradias de dois andares, num bairro e rua quietos de Elmbridge, ambas as casas pareciam desabitadas, mas no momento em que me atrevi a entrar na estreita passagem, senti como se alguém me observasse das janelas de ambas as casas. Com nada a perder, eu apenas respirei fundo um vez e entrei no beco de lado. Admito que os primeiros minutos foram angustiantes, havia aranhas nas paredes à minha frente e às minhas costas; havia também ratos no chão, poças de lama que fizeram certa sujeira em meus sapatos novos de couro. Sorte minha a lama não ter entrado por eles e chegado aos meus pés. O meu terno ficou bastante manchado, as paredes estavam molhadas e com lodo, minha calça social também se sujou. Imagino eu que tal dificuldade na passagem teria sido feita propositalmente, com o intuito de evitar que qualquer um chegasse ao outro lado; mas eu, curioso e insistente, não pensei em voltar em nenhum minuto sequer. Mas tenho quase de que se eu recuasse nem que fossem dois passos, o beco se alargaria ligeiramente, as aranhas sumiriam, as poças secariam, e o lodo das paredes também sumiriam. Tudo para que a minha volta fosse um tanto quanto fácil e isso se tornasse para mim uma oferta tentadora; mas isso nunca aconteceria realmente, eu sei o quão curioso eu sou, e nunca desistiria.

Bom, eu cheguei ao outro lado do beco, e na verdade, só dei de cara com um muro de tijolos que se erguia até muito alto. Não havia nenhum tipo de porta ou outra passagem, mas eu não sairia dali sem nem mesmo tentar. Para a minha sorte (ou talvez fosse apenas o “destino”), havia marcas na parede. Riscos feitos a carvão nos tijolos, em tijolos alternados para ser mais exato. Como um código. Havia uma marca de carvão num tijolo superior à minha cabeça, e uma marca no outro ao lado, outro risco no quarto tijolo contando da esquerda para a direita, no meu lado esquerdo, e um no sexto da direita para a esquerda, no meu lado direito. Percebi que cada marca era um símbolo, o de cima era um “pauzinho”, o outro eram dois “pauzinhos”, e assim por diante. Logo entendi que ali estavam os comandos para se sair daquele beco terrível e, quem sabe, partir para um mundo de aventuras. De qualquer jeito, eu segui os tais dos comandos, e, para a minha surpresa, o muro de tijolos começou a tremer após alguns segundos. Tremeu como se fosse cair, mas então, os tijolos mexeram-se rapidamente e formaram um buraco. Do outro lado deste buraco, eu pude ver casas, lojas, pessoas.

São pessoas interessantes, os bruxos e bruxas. Vestem-se de uma forma muito extravagante, diferentes de nós, que usamos ternos e sapatos, vestidos e tamancos. Usam capas de diversas cores, chapéus pontudos, calçam botas e vestem cintos grandes. Andam por aí com suas vestes muito pesadas, carregando caldeirões, bastões, portando varinhas mágicas. As crianças vestem-se de um jeito muito parecido, e eles todos estão sempre animados, felizes, são gentes de boa fé. É como se tivessem tudo que precisassem, ou como se eles se sentissem felizes com tudo que tem. Dizem que não posso contar a ninguém sobre o que vi, dizem que é segredo e muitos de “nós” nunca compreenderiam, ou até mesmo aceitariam. Vivem de um jeito muito simples, sabem? E eu tive várias provas de que a Magia realmente existe. Sei que tudo isso parece ser de outro mundo, mas sei o que vi, e sei que o que vi foi verdadeiro.

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Natal & other stuff

Pontas: Eu não escrevi um post natalino, Chistmas’ spirit failed.
Prince: Eu também não. Preguiça. Daqui a uma semana eu escrevo. Lol.
Pontas: Lol, até lá a gente já vai ter até esquecido como foi o Natal.

***

Bom, caros leitores, como vocês devem saber (ou não), a preguiça é um lixo. Ela te deixa desanimado, sem vontade de fazer nada e simplesmente sem saco para qualquer coisa que envolva movimento (só piscamos e respiramos pois estes são movimentos incontroláveis, né — o nome não é “incontrolável”, mas agora eu realmente não me lembro qual é). Essa foi a única razão que fez com que o post de Natal não fosse... feito. Anyway, eu não tenho realmente muito que dizer. O Natal foi particularmente normal, a véspera é que não foi lá essas coisas. Eu tive um desentendimento com Ela, sabe, aquela única que conseguiu arrancar o meu coração de mim. Mas já faz tempo. Quero dizer, o Natal foi há... quatro dias atrás. Muita coisa aconteceu nesses quatro dias, muita: eu fiquei usando o computador o dia inteiro, parando apenas para ler ou desenhar de vez em quando.
É, esse é o tipo de férias que qualquer um gostaria de ter (não, com certeza não). Ah, e eu tenho de parar com as três canecas de café à noite, estou indo dormir incrivelmente tarde por causa delas, e isso já está começando a gerar problemas por aqui. Preciso parar de comer tantos biscoitos de chocolate, e com certeza necessito de alguns exercícios para relaxar e sair de dentro desse quarto aqui, que é com certeza o lugar em que eu passo maior parte da minha vida. Isso é estranho, mas realmente necessito pegar Sol e ver as pessoas (embora por aqui só tenha muggles idiotas).
Bom, eu não vou falar só de Natal aqui, embora minha intuição no começo tenha sido fazer um post exclusivamente natalino. Há uma coisa que quero deixar esclarecida, pois já gerou algumas perguntas (não aqui no blog, mas no Messenger) de pessoas que querem saber se eu gosto de “Turma da Mônica Jovem”. Não, eu não gosto de Turma da Mônica Jovem. Eu estou seguindo um blog sobre isso somente pelo fato de que um grande colega meu é o dono dele, e eu gostaria de divulgar o blog simplesmente pela nossa “grande colegagem”. Assim como eu gostaria de que meu blog fosse divulgado.
Não tenho simplesmente nada contra a TMJ, eu simplesmente não aprecio. Não sinto a menor vontade de ler as estórias (embora já tenha lido um exemplar desse mesmo grande colega), achei o gibi muito bem desenhado (é estilo Mangá, awesome!!) e tudo mais, mas não é o tipo de estória que eu ficaria acompanhando. Maurício de Souza é um desenhista e tanto, aprecio muito suas obras e o considero uma verdadeira inspiração, mas acho que Turma da Mônica já deu o que tinha de dar.
Bom, se você, leitor, chegou até aqui, gosta realmente do que escrevo, ou é um estúpido. Ah, esse blog é estúpido, eu sou estúpido, minha vida também... todos ao me redor são e tudo que eu gosto é (okay, aí não!)! Sendo assim, se está lendo isso, eu torço de coração para que aconteça algo legal a você, como tomar um cappuccino ou, sei lá, adotar um macaco Capuchin.



Merda, qual dos dois eu escolho?

sexta-feira, dezembro 24, 2010

A casa da avó

A casa de sua avó fora sempre cheia de coisas estranhas, mas que sempre o haviam interessado. Havia aqueles quadros nos corredores, quadros obscuros, sombrios, de casas ao longe, de ilhas, de noites chuvosas. Tinha um relógio cuco na casa, mas que funcionava muito mal. Devia ter uns seis relógios na casa toda, e cada um espalhado por cada cômodo da residência. Um lustre muito grande e luxuoso ficava pendurado no saguão; e, logo nesse saguão, encontravam-se mais outros quadros. Mas não quadros sombrios, mas com fotos dele e de seus outros primos e primas, de quando eram todos pequenos e supostamente felizes. Mais à frente havia a cozinha, que era espaçosa. Nos armários espalhados pelas paredes da cozinha, bonecos de dez centímetros e de pano encontravam-se pendurados enfeitando; um dos bonecos era uma bruxa, uma bruxa feiosa e gorducha que, uma vez, o garoto achara que havia virado a cabeça para ele e piscado os olhos macabros, quando era pequeno. Outros bonecos eram gnomos, ou duendezinhos, que ele se lembrava de sempre ter querido brincar, mas nunca arranjara coragem para pedir emprestado — eles sempre pareceram tão frágeis. Dentro dos armários tinha tudo que uma cozinha deveria ter, é claro: panelas, pratos, copos, talheres, taças, ingredientes, suprimentos. E a geladeira, que ficava logo de frente para a entrada da cozinha, era a mesma; a avó tinha aquela geladeira desde que o menino se entendia por gente, e o eletrodoméstico continuava a funcionar perfeitamente. Saindo da cozinha e voltando ao hall, via-se uma porta de alumínio, que dava para o banheiro, que não era um pouco apertado e desconfortável. E havia ainda mais duas portas no saguão, portas de vidro, ambas davam para a sala de estar. E a sala de estar? O que dizer sobre ela? Era bonita, grande e aconchegante, com sofás enormes e confortáveis, cortinas longas e bonitas, um tapete que cobria todo o chão. A televisão gigantesca, o aparelho de fita cassete (há tantos anos exterminado das moradias de todo o mundo) e um rádio muito antigo encontravam-se encostados em uma das paredes. Dentro da sala de estar, havia uma porta que dava para o seu quarto. No quarto via-se uma cama gigantesca, onde o garoto já dormira tantas vezes antes. Havia armários e um guarda-roupa, e bonecas de pano. Bonecas de pano no chão e nos cantos, encarando qualquer um que entrava no recinto; encaravam com seus olhos de botão, negros, e seus rostos inexpressivos. Ele sempre temera aquelas bonecas, até mesmo hoje em dia, já crescido, ainda sentia um certo arrepio na espinha e calafrios ao vê-las.
Do lado de fora da casa de sua avó, havia um jardim. Um jardim assustador, com muitas plantas altas e de vários tipos. Para além do jardim havia um corredor (entre as paredes da casa da avó e o muro que separava da casa vizinha), um corredor que, à noite, era moradia de criaturas terríveis e assustadoras, como ratos e baratas. Ah, bom, antigamente o corredor era habitado por duendes, gnomos, besouros gigantes, ratos malignos e demônios, mas hoje em dia apenas ratos e baratas mesmo; nada tão terrível que fosse capaz de fazê-lo perder noites de sono. Enfim, era assim que ele sempre vira a casa de sua avó materna: como um lugar divertido, porém assustador. Nunca perguntou a nenhum primo seu como via a casa, e nem a nenhuma outra pessoa, era idiotice. Todavia, apesar de tudo, ele adorava aquele lugar, embora já não passasse mais tanto tempo lá.

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Solidão (poema)

Durante o dia, sensação de perseguição
Durante a tarde, estranhos vultos
Durante a noite, um murmúrio sombrio.
Enquanto caminha, sem rumo e sem o que fazer,
Vive vendo o que não deveria ver.
Enquanto pensa, mesmo sem ter muito que pensar,
Ouve estranhos sussurros, que chegam a atrapalhar.
Talvez seja bobeira, talvez seja ilusão,
Mas não há nada no mundo que o incomode mais
Do que a amarga solidão.
Quando jovem, jamais se incomodara
Mas agora que crescera, sentia-se vazio, e perturbado
Por não ser mais conhecido, e nem mesmo perguntado.
Esqueceram-lhe o nome, esqueceram-lhe a existência,
E por causa disso, caiu em decadência.
Mas já não havia mais o que fazer
Se estava tão só;
Poderia socializar, ou ao menos tentar,
Todavia, tinha certeza de que nunca iria prosperar.
A solidão o aguardava, e devia acomodar-se a isso
O fabuloso bruxo estava preso em seu próprio feitiço.


Escrevi isso há poucos minutos. Veio tão repentinamente que até assustei-me; gostei, nunca escrevi um poema antes. Não um que eu apreciasse, pelo menos. Espero que goste, leitor (a).

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segunda-feira, dezembro 20, 2010

Alzheimer: como evitá-lo

Sentou-se na cadeira da cozinha com seu exemplar recente de Palavras-cruzadas e uma caneta velha e quase no final à mão. Havia um copo de suco ao seu lado, com muitas pedras de gelo. Decidiu levar o suco e o resto para o quarto, onde ligaria o ar-condicionado. O calor nos últimos dias estava tão insuportável...
Enquanto fazia o Palavras-cruzadas, lembrou-se de um e-mail que recebera sobre o Mal de Alzheimer. Uma colega o havia enviado o tal e-mail, alertando sobre os males do Mal de Alzheimer, e como evitá-lo. Palavras-cruzadas era umas das coisas que ajudava a manter longe a tal doença. No e-mail havia alguns testes, como usar o relógio no pulso direito. Pensou bem, olhou o pulso direito e percebeu que sempre usara o relógio ali. Bom, continuando, lembrou-se também que estava escrito sobre andar de costas pela casa; lembrou-se que fizera isso no dia anterior, à tarde, logo após o almoço. Havia algo sobre ver imagens de cabeça para baixo também; sendo assim, pregou o álbum de fotos da família, colocou-o de cabeça para baixo, e dez minutos depois havia terminado de ver quase todas as fotos daquela maneira. Recordou sobre testar comidas novas... Não entendeu o motivo de aquelas coisas evitarem o Alzheimer, mas ele não tinha mais nada para fazer mesmo. É, já que não tinha mais nada para fazer, iria evitar que o Mal de Alzheimer arruinasse com sua vida... Se surgisse algo mais interessante para se fazer, ele faria, mas por enquanto tentaria impedir aquela doença.
Sendo assim, foi até a cozinha, passando pelo corredor muito abafado. Chegando lá, experimentou algumas misturas, nada demais. Em seguida, não resistindo ao calor, retornou ao quarto. Sentou-se na cama e pensou no que havia feito na cozinha, em uma das misturas que fizera.
— Bolo de chocolate misturado com orégano. Isso sim é aventura. — falou, voltando sua atenção às palavras-cruzadas e tentando tirar o gosto horrível do experimento com o suco, agora completamente aguado, ao seu lado no chão.