Surrey, 03 de Julho de 1968.
A passagem era muito estreita e secreta, eu quase não a tinha visto por ali, um beco escuro muito apertado. O beco situava-se entre duas moradias de dois andares, num bairro e rua quietos de Elmbridge, ambas as casas pareciam desabitadas, mas no momento em que me atrevi a entrar na estreita passagem, senti como se alguém me observasse das janelas de ambas as casas. Com nada a perder, eu apenas respirei fundo um vez e entrei no beco de lado. Admito que os primeiros minutos foram angustiantes, havia aranhas nas paredes à minha frente e às minhas costas; havia também ratos no chão, poças de lama que fizeram certa sujeira em meus sapatos novos de couro. Sorte minha a lama não ter entrado por eles e chegado aos meus pés. O meu terno ficou bastante manchado, as paredes estavam molhadas e com lodo, minha calça social também se sujou. Imagino eu que tal dificuldade na passagem teria sido feita propositalmente, com o intuito de evitar que qualquer um chegasse ao outro lado; mas eu, curioso e insistente, não pensei em voltar em nenhum minuto sequer. Mas tenho quase de que se eu recuasse nem que fossem dois passos, o beco se alargaria ligeiramente, as aranhas sumiriam, as poças secariam, e o lodo das paredes também sumiriam. Tudo para que a minha volta fosse um tanto quanto fácil e isso se tornasse para mim uma oferta tentadora; mas isso nunca aconteceria realmente, eu sei o quão curioso eu sou, e nunca desistiria.
Bom, eu cheguei ao outro lado do beco, e na verdade, só dei de cara com um muro de tijolos que se erguia até muito alto. Não havia nenhum tipo de porta ou outra passagem, mas eu não sairia dali sem nem mesmo tentar. Para a minha sorte (ou talvez fosse apenas o “destino”), havia marcas na parede. Riscos feitos a carvão nos tijolos, em tijolos alternados para ser mais exato. Como um código. Havia uma marca de carvão num tijolo superior à minha cabeça, e uma marca no outro ao lado, outro risco no quarto tijolo contando da esquerda para a direita, no meu lado esquerdo, e um no sexto da direita para a esquerda, no meu lado direito. Percebi que cada marca era um símbolo, o de cima era um “pauzinho”, o outro eram dois “pauzinhos”, e assim por diante. Logo entendi que ali estavam os comandos para se sair daquele beco terrível e, quem sabe, partir para um mundo de aventuras. De qualquer jeito, eu segui os tais dos comandos, e, para a minha surpresa, o muro de tijolos começou a tremer após alguns segundos. Tremeu como se fosse cair, mas então, os tijolos mexeram-se rapidamente e formaram um buraco. Do outro lado deste buraco, eu pude ver casas, lojas, pessoas.
São pessoas interessantes, os bruxos e bruxas. Vestem-se de uma forma muito extravagante, diferentes de nós, que usamos ternos e sapatos, vestidos e tamancos. Usam capas de diversas cores, chapéus pontudos, calçam botas e vestem cintos grandes. Andam por aí com suas vestes muito pesadas, carregando caldeirões, bastões, portando varinhas mágicas. As crianças vestem-se de um jeito muito parecido, e eles todos estão sempre animados, felizes, são gentes de boa fé. É como se tivessem tudo que precisassem, ou como se eles se sentissem felizes com tudo que tem. Dizem que não posso contar a ninguém sobre o que vi, dizem que é segredo e muitos de “nós” nunca compreenderiam, ou até mesmo aceitariam. Vivem de um jeito muito simples, sabem? E eu tive várias provas de que a Magia realmente existe. Sei que tudo isso parece ser de outro mundo, mas sei o que vi, e sei que o que vi foi verdadeiro.
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