Sentou-se à cadeira da escrivaninha com um caderno antigo e uma caneta igualmente antiga, quase no fim. O incomodava o fato de nunca saber se, algum dia, quando fosse escrever algo, a caneta viesse a falhar e lhe deixasse na mão, mas a preguiça era maior e a força de vontade nunca prevalecia. Aquele dia, no entanto, quando se sentou para escrever, pensou em dobro na tinta da caneta, e nas folhas do caderno que já estavam muito perto do fim. Pensou em levantar-se e ir comprar materiais novos, mesmo estando já escuro e sabendo que era muito difícil encontrar um armarinho aberto; hesitou, pensou duas vezes, analisou a caneta, analisou a grossura do que restava de folhas do caderno. Mesmo com sua cabeça lhe implorando para que tomasse alguma coragem e saísse dali daquele quarto, nem que fosse para pegar um ventinho na calçada, o menino permaneceu sentado. Posicionou-se para começar a escrever, quando de repente aquela conhecida música tocou, indicando que seu celular acabara de receber uma mensagem. Pegou depressa o aparelho e, ao ver quem enviara, animou-se para ler (talvez aquela fosse uma das raras vezes naquele dia em que ficava animado). Ao começo da mensagem, riu, mas ao chegar ao fim, sentiu certo peso no peito. Releu a última parte, dessa vez uma ardência no peito. Fez uma careta, mas nem mesmo ele sabia se era uma careta de dor, de raiva, de nojo, de... de...
Ajeitou-se na cadeira e perguntou-se: “será que devo responder?”. Releu a última parte, e fez que não com a cabeça. Fizera inconscientemente, e só alguns segundos depois que fora notar que executara tal movimento (talvez tivesse sido um movimento de reprovação, ou talvez só a resposta para a pergunta anterior, não soube identificar) . Fechou a mensagem, mas não a excluíra, embora aquela ultima partezinha o incomodasse deveras. Jogou o celular para trás, pouco se importando com onde ele cairia; mas para a sua sorte, o objeto caíra em cima de sua cama. Rodou o assento da cadeira e viu seu quarto girar por alguns segundos, até a velocidade diminuir, diminuir, diminuir e parar de frente para seu armário. Pregado na parte de dentro da porta aberta do armário, ele viu a imagem de um garoto magro, não muito alto, com cabelos negros bagunçados e óculos grandes, tinha uma expressão de derrota. Vestia um casaco verde, apesar de não estar frio, e sua calça de malha era conhecida. O menino suspirou para seu reflexo no espelho, encarou-se por mais alguns segundos e perguntou-se mentalmente, por fim, se havia algo de errado com ele. Ele mudara, sabia disso, mas não em aparência: em seu jeito. Ele sempre fora alguém confiante, alegre, animado, um tanto arrogante e pretencioso, e disposto a qualquer coisa; mas nos dias atuais era apenas um garoto com indícios de baixa autoestima, que quase sempre era tomado pela melancolia e quase sempre se via frustrado; abandonara a arrogância de vez, e agora até se achava feio e esquisito, a única coisa que continuara nele fora a pretensão, mas, ainda assim, ela ia e voltava de vez em quando, cambaleante. Lembrou-se de certas pessoas, algumas das quais ele causara grandes desapontamentos e decepções. Uma em especial... Talvez ele estivesse agora pagando o preço por sempre não ter dado muita bola aos sentimentos dos outros, ou talvez aquilo tudo fosse apenas um grande exagero.
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