Quando a viu pela primeira vez apaixonou-se. Era bonita — e como era! Era formosa, tinha corpo de violão e parecia lhe sorrir sempre que a olhava, havia visto pela primeira vez naquela loja que sempre visitava, mas nunca comprava nada. E daquele dia em diante ele decidiu que sempre voltaria lá, pois sabia que lá ela sempre estaria esperando por ele. Não era rico o suficiente, por isso passou pelo menos uns três meses vendendo suas figurinhas e álbuns para arrecadar algum dinheiro. Vendeu também alguns objetos que furtara da casa de sua avó, e que ele tinha certeza de que não fariam a menor falta. E assim foram três meses de muito sacrifício, onde os dois sempre se viam no mesmo horário: logo após a escola dele. Ele saía animado do colégio, e não pensava em outra coisa durante todo o caminho. Entrava na loja e lá estava ela, o olhando com carinho. Prometia sempre aos sussurros que voltaria no outro dia, e dizia sempre que a levaria com ele assim que pudesse, e estava trabalhando firme nesse sonho. O sonho de tirá-la dali e levá-la embora! Embora para qualquer lugar, desde que estivessem juntos.
E os meses se passaram, e a cada dia o amor se tornava mais forte. Ele já havia comentado com os amigos, os amigos mesmo, que o apoiaram. Algumas meninas haviam ouvido a estória, e por algum motivo se interessaram por ele, mas o garoto não se permitia distrações, e seguia firme com seu primeiro amor em mente. E então aconteceu, chegou o final do último mês (o terceiro mês), e ele estava com dinheiro suficiente. Quando o sinal de saída do colégio apitou, ele já estava com a mochila arrumada, o dinheiro nos bolsos da calça, e um sorriso de emoção. Retirou-se do prédio, e por todo o caminho não pensava em outra coisa; só sentia o frio na barriga. Parou em frente à loja, suspirou uma vez, abriu a porta e entrou logo. Foi até o lugar de sempre, mas ela já não estava mais lá, estava nas mãos de outro, que parecia comemorar. Ele, chocado, somente implorou. “Não a tire de mim, é dela que eu preciso, ela me ama, eu a amo, e nos merecemos um ao outro”. Mas o homem, rindo, não ligou para o menino, tampouco foi piedoso. “Saia da minha frente, menino tolo, e pare de falar baboseiras”. O homem saiu da loja, contente, e ela foi junto, lançando ao garoto um olhar de tristeza, sem nada dizer. O menino voltou para casa, completamente desapontado, e falam que nunca mais ele voltou àquela loja.
E é isso que contam que aconteceu( há muito tempo atrás, onde meninas usavam saias cumpridas e brincavam de bonecas, e garotos brincavam na rua sem preocupação com o perigo) com aquele menino diferente de todos os outros, e que se apaixonara por uma guitarra.
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