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sexta-feira, dezembro 24, 2010

A casa da avó

A casa de sua avó fora sempre cheia de coisas estranhas, mas que sempre o haviam interessado. Havia aqueles quadros nos corredores, quadros obscuros, sombrios, de casas ao longe, de ilhas, de noites chuvosas. Tinha um relógio cuco na casa, mas que funcionava muito mal. Devia ter uns seis relógios na casa toda, e cada um espalhado por cada cômodo da residência. Um lustre muito grande e luxuoso ficava pendurado no saguão; e, logo nesse saguão, encontravam-se mais outros quadros. Mas não quadros sombrios, mas com fotos dele e de seus outros primos e primas, de quando eram todos pequenos e supostamente felizes. Mais à frente havia a cozinha, que era espaçosa. Nos armários espalhados pelas paredes da cozinha, bonecos de dez centímetros e de pano encontravam-se pendurados enfeitando; um dos bonecos era uma bruxa, uma bruxa feiosa e gorducha que, uma vez, o garoto achara que havia virado a cabeça para ele e piscado os olhos macabros, quando era pequeno. Outros bonecos eram gnomos, ou duendezinhos, que ele se lembrava de sempre ter querido brincar, mas nunca arranjara coragem para pedir emprestado — eles sempre pareceram tão frágeis. Dentro dos armários tinha tudo que uma cozinha deveria ter, é claro: panelas, pratos, copos, talheres, taças, ingredientes, suprimentos. E a geladeira, que ficava logo de frente para a entrada da cozinha, era a mesma; a avó tinha aquela geladeira desde que o menino se entendia por gente, e o eletrodoméstico continuava a funcionar perfeitamente. Saindo da cozinha e voltando ao hall, via-se uma porta de alumínio, que dava para o banheiro, que não era um pouco apertado e desconfortável. E havia ainda mais duas portas no saguão, portas de vidro, ambas davam para a sala de estar. E a sala de estar? O que dizer sobre ela? Era bonita, grande e aconchegante, com sofás enormes e confortáveis, cortinas longas e bonitas, um tapete que cobria todo o chão. A televisão gigantesca, o aparelho de fita cassete (há tantos anos exterminado das moradias de todo o mundo) e um rádio muito antigo encontravam-se encostados em uma das paredes. Dentro da sala de estar, havia uma porta que dava para o seu quarto. No quarto via-se uma cama gigantesca, onde o garoto já dormira tantas vezes antes. Havia armários e um guarda-roupa, e bonecas de pano. Bonecas de pano no chão e nos cantos, encarando qualquer um que entrava no recinto; encaravam com seus olhos de botão, negros, e seus rostos inexpressivos. Ele sempre temera aquelas bonecas, até mesmo hoje em dia, já crescido, ainda sentia um certo arrepio na espinha e calafrios ao vê-las.
Do lado de fora da casa de sua avó, havia um jardim. Um jardim assustador, com muitas plantas altas e de vários tipos. Para além do jardim havia um corredor (entre as paredes da casa da avó e o muro que separava da casa vizinha), um corredor que, à noite, era moradia de criaturas terríveis e assustadoras, como ratos e baratas. Ah, bom, antigamente o corredor era habitado por duendes, gnomos, besouros gigantes, ratos malignos e demônios, mas hoje em dia apenas ratos e baratas mesmo; nada tão terrível que fosse capaz de fazê-lo perder noites de sono. Enfim, era assim que ele sempre vira a casa de sua avó materna: como um lugar divertido, porém assustador. Nunca perguntou a nenhum primo seu como via a casa, e nem a nenhuma outra pessoa, era idiotice. Todavia, apesar de tudo, ele adorava aquele lugar, embora já não passasse mais tanto tempo lá.

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