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quarta-feira, março 23, 2011
domingo, março 06, 2011
Carnaval, maldito seja!
Carnaval. Droga de carnaval! Mas por que diabos decidiram criar este raio de festa? Na verdade, por que decidiram modificar todo o sentido dela? O que antigamente era um dia da semana em que os plebeus tinham o luxo de comer carne (daí carnaval, festa da carne) acabou transformando-se em uma festa onde as pessoas bebem, fazem orgias por todo o canto, sofrem acidentes e fazem merda por aí.
Quem foi o babaca que decidiu que no dia da festa da carne desfilariam grandes carros alegóricos por aí, com mulheres seminuas dançando de um jeito bizarro e mais um grupo de pessoas atrás acompanhando, ao som de uma música inspirada em temas cotidianos ou antigos? Quero dizer, qual o sentido disso tudo? Beber, transar, bater com o carro, morrer... Basicamente, é isso que acontece no carnaval. Fico pasmo com o governo do Rio de Janeiro, que investe milhões em uma festa escrota dessa, e em relação a postos de saúde, educação e saneamento, simplesmente cagam e andam. Sem contar que na semana de carnaval ficam desfilando vários blocos pelas ruas, tendo várias micaretas, e é um saco! Pior mesmo são aquelas crianças que não têm um livro decente para ler e saem por aí vestidas do que chamam “bate-bola”. Realmente, esse nome é um dos que mais coincidem com a verdade, pois é justamente isso que eles fazem: bater bolas. Compram aqueles objetos (quem foi o escroto que criou aquela bola amarrada a um cabo?) e saem pelas ruas batendo, atrapalhando você (que está em casa tentando levar isso tudo da melhor forma) e tornando o seu dia muito mais horrível.
Acho que o carnaval tornou-se um Halloween brasileiro, a única diferença é por essa palavrinha no final: brasileiro. Tudo que seja do Brasil, tudo que seja daqui, tem de ter extravagância, tem de ter excessos! Elas [as pessoas] não se contentam em vestir fantasias e rir um pouco e se divertir com os amigos. Elas querem se embebedar, fazer orgias publicamente, quebrar coisas, bater bolas, jogar quilos e mais quilos de sujeira no chão (meus pêsames aos garis) e tornar tudo uma verdadeira zona.
O único bom do carnaval é que o shopping fica vazio, e a chance de não ter filas para o cinema e praças de alimentação é de 99%. É, viva o carnaval...
quinta-feira, fevereiro 17, 2011
O primeiro amor
Quando a viu pela primeira vez apaixonou-se. Era bonita — e como era! Era formosa, tinha corpo de violão e parecia lhe sorrir sempre que a olhava, havia visto pela primeira vez naquela loja que sempre visitava, mas nunca comprava nada. E daquele dia em diante ele decidiu que sempre voltaria lá, pois sabia que lá ela sempre estaria esperando por ele. Não era rico o suficiente, por isso passou pelo menos uns três meses vendendo suas figurinhas e álbuns para arrecadar algum dinheiro. Vendeu também alguns objetos que furtara da casa de sua avó, e que ele tinha certeza de que não fariam a menor falta. E assim foram três meses de muito sacrifício, onde os dois sempre se viam no mesmo horário: logo após a escola dele. Ele saía animado do colégio, e não pensava em outra coisa durante todo o caminho. Entrava na loja e lá estava ela, o olhando com carinho. Prometia sempre aos sussurros que voltaria no outro dia, e dizia sempre que a levaria com ele assim que pudesse, e estava trabalhando firme nesse sonho. O sonho de tirá-la dali e levá-la embora! Embora para qualquer lugar, desde que estivessem juntos.
E os meses se passaram, e a cada dia o amor se tornava mais forte. Ele já havia comentado com os amigos, os amigos mesmo, que o apoiaram. Algumas meninas haviam ouvido a estória, e por algum motivo se interessaram por ele, mas o garoto não se permitia distrações, e seguia firme com seu primeiro amor em mente. E então aconteceu, chegou o final do último mês (o terceiro mês), e ele estava com dinheiro suficiente. Quando o sinal de saída do colégio apitou, ele já estava com a mochila arrumada, o dinheiro nos bolsos da calça, e um sorriso de emoção. Retirou-se do prédio, e por todo o caminho não pensava em outra coisa; só sentia o frio na barriga. Parou em frente à loja, suspirou uma vez, abriu a porta e entrou logo. Foi até o lugar de sempre, mas ela já não estava mais lá, estava nas mãos de outro, que parecia comemorar. Ele, chocado, somente implorou. “Não a tire de mim, é dela que eu preciso, ela me ama, eu a amo, e nos merecemos um ao outro”. Mas o homem, rindo, não ligou para o menino, tampouco foi piedoso. “Saia da minha frente, menino tolo, e pare de falar baboseiras”. O homem saiu da loja, contente, e ela foi junto, lançando ao garoto um olhar de tristeza, sem nada dizer. O menino voltou para casa, completamente desapontado, e falam que nunca mais ele voltou àquela loja.
E é isso que contam que aconteceu( há muito tempo atrás, onde meninas usavam saias cumpridas e brincavam de bonecas, e garotos brincavam na rua sem preocupação com o perigo) com aquele menino diferente de todos os outros, e que se apaixonara por uma guitarra.
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todos têm um primeiro amor
domingo, janeiro 23, 2011
Overkill
Sentou-se à cadeira da escrivaninha com um caderno antigo e uma caneta igualmente antiga, quase no fim. O incomodava o fato de nunca saber se, algum dia, quando fosse escrever algo, a caneta viesse a falhar e lhe deixasse na mão, mas a preguiça era maior e a força de vontade nunca prevalecia. Aquele dia, no entanto, quando se sentou para escrever, pensou em dobro na tinta da caneta, e nas folhas do caderno que já estavam muito perto do fim. Pensou em levantar-se e ir comprar materiais novos, mesmo estando já escuro e sabendo que era muito difícil encontrar um armarinho aberto; hesitou, pensou duas vezes, analisou a caneta, analisou a grossura do que restava de folhas do caderno. Mesmo com sua cabeça lhe implorando para que tomasse alguma coragem e saísse dali daquele quarto, nem que fosse para pegar um ventinho na calçada, o menino permaneceu sentado. Posicionou-se para começar a escrever, quando de repente aquela conhecida música tocou, indicando que seu celular acabara de receber uma mensagem. Pegou depressa o aparelho e, ao ver quem enviara, animou-se para ler (talvez aquela fosse uma das raras vezes naquele dia em que ficava animado). Ao começo da mensagem, riu, mas ao chegar ao fim, sentiu certo peso no peito. Releu a última parte, dessa vez uma ardência no peito. Fez uma careta, mas nem mesmo ele sabia se era uma careta de dor, de raiva, de nojo, de... de...
Ajeitou-se na cadeira e perguntou-se: “será que devo responder?”. Releu a última parte, e fez que não com a cabeça. Fizera inconscientemente, e só alguns segundos depois que fora notar que executara tal movimento (talvez tivesse sido um movimento de reprovação, ou talvez só a resposta para a pergunta anterior, não soube identificar) . Fechou a mensagem, mas não a excluíra, embora aquela ultima partezinha o incomodasse deveras. Jogou o celular para trás, pouco se importando com onde ele cairia; mas para a sua sorte, o objeto caíra em cima de sua cama. Rodou o assento da cadeira e viu seu quarto girar por alguns segundos, até a velocidade diminuir, diminuir, diminuir e parar de frente para seu armário. Pregado na parte de dentro da porta aberta do armário, ele viu a imagem de um garoto magro, não muito alto, com cabelos negros bagunçados e óculos grandes, tinha uma expressão de derrota. Vestia um casaco verde, apesar de não estar frio, e sua calça de malha era conhecida. O menino suspirou para seu reflexo no espelho, encarou-se por mais alguns segundos e perguntou-se mentalmente, por fim, se havia algo de errado com ele. Ele mudara, sabia disso, mas não em aparência: em seu jeito. Ele sempre fora alguém confiante, alegre, animado, um tanto arrogante e pretencioso, e disposto a qualquer coisa; mas nos dias atuais era apenas um garoto com indícios de baixa autoestima, que quase sempre era tomado pela melancolia e quase sempre se via frustrado; abandonara a arrogância de vez, e agora até se achava feio e esquisito, a única coisa que continuara nele fora a pretensão, mas, ainda assim, ela ia e voltava de vez em quando, cambaleante. Lembrou-se de certas pessoas, algumas das quais ele causara grandes desapontamentos e decepções. Uma em especial... Talvez ele estivesse agora pagando o preço por sempre não ter dado muita bola aos sentimentos dos outros, ou talvez aquilo tudo fosse apenas um grande exagero.
sexta-feira, janeiro 14, 2011
Bela Tarde Nublada
O mal tempo não o impedira de nada. Muito pelo contrário, apenas o incentivara, já que adorava chuva e céu nublado. Antes de sair de casa ele vestira um agasalho bem quente, uma calça jeans e seu tênis de sempre. Vestira uma touca e luvas. Na realidade, não chovia; apenas chuviscava. Mas fazia bastante frio aquela época do ano. Ele havia trancado a porta de casa como sempre fazia, havia fechado todas as janelas, havia deixado comida e bebida para o cachorro, e deixara todos seus brinquedos perto de sua pequena cama, para que o animal não precisasse devorar seus sapatos e chinelos.
Saíra de casa vagarosamente, e assim permanecera durante todo o caminho. Cumprimentou alguns conhecidos durante o percurso; sorrira para umas belas damas que passavam e o olhavam, mas somente para ser gentil. Tinha um propósito àquela tarde, e, por causa disso, não poderia ficar se engraçando com qualquer rabo-de-saia que aparecesse a sua frente (de qualquer maneira, ele não queria). Desde algum tempo que havia se apaixonado por uma mulher. Era uma bela mulher, e ele achava que ela também se apaixonara por ele. Esperava que sim...
Àquela tarde, ele chegou ao local combinado uns cinco minutos antes do horário marcado. Esperou em frente à cafeteria, e quando deu o horário, ele a viu virando a esquina. Quanto mais a bela aproximava-se, mais ele podia notar sua beleza. Tanta formosura, e doçura, e beleza, que muitas vezes o homem perguntava-se como poderia haver tantas virtudes em uma pessoa só. Além disso tudo, era inteligente e divertida, embora ela sempre dissesse que só era engraçada perto de pessoas monótonas (ora, então ele devia ser um grande monótono, pois sempre ria com suas piadas).
Então a mulher parou à frente dele, com um sorriso no rosto. E que sorriso. Um dos mais bonitos do mundo, ele arriscaria dizer. Talvez o sorriso mais bonito do mundo. Ela estava linda vestindo aquele belo cachecol, casaco e uma blusa de manga cumprida, usava calças jeans e botas, vestia uma boina, seus cabelos lisos e negros caindo pelos seus ombros e chegando até a metade das costas. Os dois beijaram-se rapidamente, um beijo suave, simples, e sorriram. Entraram na cafeteria e foram logo se servir; ele pediu café bem amargo, ela pediu café bem doce. Sentaram-se na mesa perto da janela, e começaram a conversar. Como sempre, ele não tinha muito que falar, e tentou apenas puxar assunto com coisas bobas, ela tinha o que conversar, e conversou. E conversaram.
E para a grande felicidade dele, e também dela, os dois conseguiram não brigar aquele dia. O rapaz foi capaz de não falar besteira como normalmente fazia, ou falar sem querer de qualquer outra garota, o que a chateava, e ela evitou falar sobre outros garotos, o que o fazia ficar extremamente enciumado. Aquela fora uma bela tarde nublada.
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