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quinta-feira, outubro 21, 2010

A má sorte em um dia simples

Andava tranquilamente pelas ruas molhadas. Via as pessoas passando depressa, com seus guarda-chuvas — embora não chovesse realmente. O vento frio atravessava seu casaco grosso, sua blusa de manga cumprida, sua pele, e chegava até seus ossos, congelando-os. Ele sentia-se por inteiro gelado.
Dobrou a esquina e pisou em uma poça d’água. Reclamou baixinho e sacudiu seu pé, sorte que o tênis o protegera da água suja e fria. Continuou seu percurso, no entanto, parou no meio da calçada, alguns segundos depois: observou as belas e antigas casas, sorriu ao ver os lampiões velhos, e continuou.
Para a sua sorte (bom, era o que ele chamava de sorte) não encontrou ninguém conhecido nas ruas que levavam até sua casa, o que permitiu que ele pudesse pensar melhor e analisar com mais eficácia os lugares por onde passava. Olhou para o céu e viu nuvens muito cinzas e muito densas: elas logo chorariam, molhando toda a cidade. Estava cada vez mais perto de isso acontecer.
Viu uma mulher com um guarda-chuva muito grande nas mãos atravessar a rua ligeiramente e entrar na sua frente. Os dois seguiram pelo mesmo caminho por um tempo, ela era bonita. Ele imaginou se teria alguma chance; sabia que não, tinha quase certeza, sabia que algo no último momento aconteceria e atrapalharia tudo; mesmo assim ele tentou. “Ei”, ele disse, mas ela aparentemente não o escutara, apressou o passo e esticou a mão, ia foi tocá-la, preparou um sorriso, mas a moça virou à sua esquerda e parou diante de um portão. Ele não esperava por isso, então continuou andando, a mão esticada bobamente para frente, olhou para frente e a viu tirar um molho de chaves do bolso interno de seu casaco. Ela abriu o portãozinho de ferro e passou, trancando-o em seguida. Ele reclamou mentalmente, abaixou a cabeça e pôs as mãos no bolso do casaco. Mais uma vez, o azar o encontrara.